Esporte Joinville - A Escola Nacional de Técnicos vem trazendo avanços?
Marcel - O Brasil é muito vasto e antes da ENTB apenas a CBB tentava levar algum
conhecimento aos professores de educação física que ensinavam o basquete.
A ENTB, embora seja uma escola criada de cima para baixo, ou seja, a CBB
e não os técnicos a organizou, está conseguindo levar aos treinadores da base
um grande instrumento de aprendizado do jogo.
EJ-
A 4ª edição do NBB irá começar agora em novembro, o que você acha da liga? O
nível e a estrutura das equipes melhorou significativamente ou não?
Marcel - A única restrição à NBB é o fato de se limitar o número de participantes
por estado, sem levar em conta o potencial de equipes que estão de fora da
competição em fazer uma melhor espetáculo do que equipes que têm seu lugar
garantido por estatuto.
Na minha opinião, o critério deveria ser apenas de mercado, financeiro e
técnico, pois se alguma equipe conseguir um grande patrocínio, jamais poderá
participar se a cota dos clubes por estado estiver completa.
Também me incomoda muito o fato de que a final do NBB4 será realizada em
um único jogo, o que vai contra ao grande basquete e, embora, financeiramente
possa ser mais rentável, para o campeonato tal decisão não será tecnicamente
lucrativa..
Eu acredito no dia em que a TV aberta terá interesse em transmitir todos
os jogos de uma grande série final do NBB, como acontece em todos os lugares onde
o basquete é levado a sério.
Quem justifica com dados financeiros e de “audiência” a final com jogo
único, ou nunca jogou, ou jogou muito pouco e com certeza nem leva em
consideração a macro-importância de uma competição como o NBB no esporte
basquete bem como sua importância social e sua sobrevivência como um todo.
EJ - O que você pensa do trabalho de base feito pelos clubes brasileiros?
Marcel - Como disse, nossos técnicos trabalham pressionados pelos resultados e
isso nunca foi compatível com o ensinamento correto do jogo.
Na minha formação como jogador de basquete (até os 15 anos), eu fazia
apenas 7 jogos por temporada e meus técnicos tinham tempo para me treinar em
todos os fundamentos sem se preocuparem se íamos ou não ser campeões do Sub-13!
Hoje é necessário ser campeão desde os 11 anos e o técnico desses
garotos devem por força vencer e não ensinar o jogo.
Essa realidade é determinada pelos clubes, que não vêem (o Word ainda
está com o sistema ortográfico antigo), interesse em apenas ensinar o jogo sem
a competição. Preferem não ter a atividade caso não haja uma disputa oficial.
O ensinamento do jogo passa também por ensinar o jogador a competir, mas
isso não deve ser o motivo principal que oriente a formação das novas gerações
de atletas de basquetebol.
EJ - Como médico do Programa Saúde da Família e como Radiologista, você consegue
ser tão feliz quanto em quadra? Conte-nos como foi a saga em se tornar médico
jogando basquete profissionalmente.
Marcel - Muito mais feliz. Os elogios que recebia em quadra são agora dados no
âmago de uma relação médico-paciente, onde o importante é aliviar o sofrimento
deste.
Tudo começou em 1976 quando meu pai me disse que eu só voltaria para a
Bradley se entrasse numa faculdade no Brasil.
Naquele ano fiz cursinho em São Paulo e entrei na Medicina por opção que
até hoje não sei bem como foi feita.
Creio que tenha me olhado no espelho e visto lá dentro de mim um médico.
Deve ter sido isso, pois a medicina é uma espécie de missão e a gente não
escolhe a missão.
A missão é que nos escolhe.
Sei que daí para frente foi uma luta muito dura para conciliar o
basquete em alto nível e a medicina.
Lembro-me de ir dormindo no ônibus até Franca, jogar, vencer e voltar
dormindo até Jundiaí.
Chegava dos treinos do Sírio as 11 da noite e estudava até as 2 ou 3 da
manhã.
Fazia plantão de internato direto, pois tinha que deixar dias livres
para os jogos.
Enfim foi uma luta até me formar a qual sobrevivi sem DPs ou 2ª época.
Formei-me em 6 anos.
Retomei a medicina 10 anos depois para a especialização em Radiologia,
mas daí já havia me tornado treinador e tudo foi mais fácil.
Hoje encaro a medicina como encarava o basquete: Treinamento duro e bola
prá frente.
14 - Você pode relacionar quais os melhores jogadores com que jogou?
Na minha época joguei com e contra todos os melhores do mundo de Ubiratn,
Wlamir Marques e Amaury Passos no Brasil, até Larry Bird, Magic Johnson e
Michael Jordan, de 72 a 92 foram praticamente todos.
EJ - Quais os treinadores que mais te influenciaram na carreira?
Marcel - No início meu pai, que jogava basquete, mas nunca chegou a uma seleção,
embora tenha jogado até no Sírio.
Todo filho quer de um modo ou de outro imitar o pai e comigo não foi
diferente.
Dentro e fora das quadras ele me ensinou e me foi exemplo da única coisa
que eu precisava saber para a minha vida inteira: ele me ensinou a aprender.
Daí para frente foi mais fácil e eu contei com a sorte de ter sido
treinado por pessoas que me entenderam e me fizeram expressar o melhor de mim.
O primeiro deles foi João Francisco Bráz, medalhista olímpico em Londres
48, que veio para Jundiaí e nos ensinou todos os fundamentos do jogo.
No Sírio tive Pedro Genevicius, que corrigiu a minha aterrissagem após
os arremessos.
Depois veio o grande Joe Stowell, meu técnico na Bradley, que me ensinou
a entender o jogo de uma maneira total e seus conceitos são modernos até hoje.
Não os apliquei muito aqui no Brasil, mas na Itália o que ele me ensinou
foi fundamental.
Depois dele sou muito grato a Claúdio Mortari meu técnico na era
gloriosa do Sírio e a Edson Bispo do Santos meu primeiro técnico na seleção.
Ambos me levaram a jogar o melhor que podia e eu não os decepcionei.
Na Itália tive Bogdan Tanjevic, que me mostrou a intensidade que o jogo
deve ser encarado e Giorgio Montano, que me ensinou todas as nuances do
basquete de hoje.
Sou agradecido a Ary Vidal, que em certos momentos da minha vida
substituiu meu pai fora das quadras e dentro dela me permitiu interpretar o
jogo de basquete da maneira que eu achava apropriada naqueles também gloriosos
momentos,
Por último, e eu sei que estou me esquecendo de muitos treinadores que
também me ajudaram, não posso deixar de agradecer a Edvar Simões por ter me
recuperado para o basquete quando tudo parecia perdido e poucos ainda
acreditavam em mim.
Edvar me ensinou que eu poderia falar tudo o que desejasse, mas que eu
teria que estar disposto e aberto a ouvir o que os outros tinham para me falar
e expressar. Além de vencer o que fosse possível, é claro.
EJ - Considerações finais, espaço aberto para falar sobre algo que gostaria de
responder e não foi perguntado.
Marcel - O que não me foi perguntado é o que não deveria ser falado, portanto
espero que você tenha gostado de minhas palavras. Obrigado.



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