Uma das melhores coisas da vida é termos heróis desde a infância, e outra melhor ainda é poder conviver e se comunicar com estes heróis. Este blog simplesmente está conseguindo algo fantástico, ter no quadro Tabelinha os heróis desse que vos escreve.
Nesta semana, tenho o prazer de entrevistar um dos meus heróis. Homem com visão de mundo e do esporte que ajudou a promover no nosso país. Médico do Programa Saúde da Família, Radiologista, treinador e um dos maiores jogadores de basquetebol da história do Brasil, tem opiniões fortes, precisas e por isso o Tabelinha desta semana é com MARCEL DE SOUZA!!!!!
Esporte Joinville - A família é muito importante no apoio ao atleta em todas as fases da
carreira. Gostaria que você relatasse um pouco da importância da família na sua
escolha pelo basquete.
Marcel - Na verdade, nada substitui o treinamento e o tutor. Esse pode não ser da
família, que é importante para a formação emocional de todos nós.
Minha família sempre me apoiou e meu pai foi um excelente tutor. Devo
tudo a ele.
EJ-
Impossível não lembrarmos de momentos épicos da sua carreira como jogador no
Mundial de 1978 no último segundo contra a Itália, no título Mundial com o E.C
Sírio em 1979 e o título Pan-Americano em Indianápolis em 1987. Qual foi o
melhor momento da sua carreira?
Marcel - O basquete é um esporte coletivo e o Pan de 87 foi o melhor momento
nesse sentido.
Já a cesta das Filipinas no mundial de 78 foi o que mais marcou a minha
carreira como indivíduo.
EJ - Qual a importância do E.C Sírio na tua vida?
Marcel - O Sírio foi o clube que me deu condições de desenvolver todo o meu
potencial e embora eu já estivesse na seleção brasileira (aos 16 anos) quando
fui para lá, tenho certeza que se não fosse o Sírio, eu não saberia onde
poderia chegar como atleta.
EJ - Como foi a ida para os Estados Unidos jogar no basquetebol universitário?
Marcel - Fui para os Estados Unidos porque eu já era cestinha do campeonato
paulistano, do campeonato estadual e do campeonato brasileiro, mas continuava
“reservão” na seleção.
Quando meu pai foi perguntar aos dirigentes da seleção brasileira se não
estava na hora de me darem uma chance, ouviu deles que eu ainda era muito novo,
que outros atletas iriam jogar e que eu deveria esperar pela minha vez.
Meu pai então, lhes disse que se era para esperar a vez ele iria me
mandar para uma universidade americana (Bradley University).
Eu, é claro, fui. Já no terceiro jogo do ano virei titular e tive uma
média de 14,4 pts por partida naquela temporada.
Meu técnico (Joe Stowell) me garantiu que se eu ficasse lá por quatro
anos, seguramente jogaria na NBA.
Isso provocou uma reação muito grande no basquete brasileiro e, contra a
minha vontade, novamente respeitei as orientações de meu pai, retornei ao
Brasil e me tornei titular da seleção brasileira de 76 até as Olimpíadas de 92
quando perdi essa condição e encerrei minha carreira na seleção.
EJ - E a transferência para o basquete italiano, houve alguma dificuldade de
adaptação ao jogo e aos métodos de treinamento?
Marcel - Veja bem, eu jogava sem dificuldades no Brasil e fui para o melhor
campeonato do mundo, fora da NBA, na época.
Foi um choque ideológico muito grande o qual durou todo o primeiro turno
da competição.
Lá fui apresentado ao verdadeiro basquete e até hoje não consegui trazer
as minhas convicções, que foram forjadas nessa experiência italiana, para o
basquete brasileiro.
EJ - Com o fim da carreira de jogador se aproximando na volta ao Brasil no início
dos anos 90, como aconteceu a migração para a carreira de treinador?
Marcel - Quando percebi que eu enxergava o jogo, mas estava sempre um segundo
atrasado, ou seja, não reagia com a mesma velocidade de antes, resolvi parar de
jogar.
Meu joelho também colaborou muito para a essa decisão.
Entretanto, tinha desejo de continuar no meio do basquete e a opção de
ser treinador veio naturalmente.
Encerrei minha carreira num jogo Palmeiras e Santa Cruz do Sul numa
sexta-feira e no domingo já era o técnico de Guarulhos.
EJ - Você em 2007, dizia ser a favor de um técnico estrangeiro para a seleção
desde que, esse vivenciasse a nossa realidade, o atual técnico da seleção
e o anterior conseguiram trazer alguma evolução pro basquete brasileiro?
Marcel - Em 2007, Mike Frink e Flor Melendez sabiam muito bem como funcionava o
basquete brasileiro como um todo e eu não criticaria a decisão de torná-los
treinadores da nossa seleção.
Frink foi assistente técnico da seleção brasileira em 92 e Melendez já treinou
várias seleções além de Porto Rico. Ambos foram treinadores de equipes
brasileiras.
O basquete brasileiro sempre esteve entre os melhores do mundo, caso
contrário não teríamos tantos jogadores atuando fora do Brasil nos mais
diversos níveis.
O que nunca aconteceu na nossa seleção e ainda não acontece atualmente,
embora os resultados já estejam aparecendo com uma mudança de atitude dos
principais jogadores da nossa seleção, foi o treinamento apropriado.
Até o pré-olímpico de Mar del Plata, treinamos e jogamos como se sempre
fez em nossos campeonatos.
O grande valor de Magnano foi treinar e jogar como se faz na Argentina,
que é uma potência mundial.
O maior valor de nossos principais jogadores foi o de perceber que Mar
del Plata era a “última praia” para que eles pudessem deixar algo de bom para
as gerações futuras e para eles mesmos, pois a participação em Olimpíadas coroa
a nossa carreira e nos transforma em exemplo para os novos atletas.
No entanto, o que vimos posteriormente a essa grande conquista, no Pan
de Guadalajara, foi uma volta ao velho esquema, mesmo com o nosso excelente
técnico no comando, o que mostra que ainda não desenvolvemos todo o nosso
talento, nem compreendemos o que é seleção brasileira de basquete.
EJ - O perfil do atleta de basquetebol brasileiro mudou? Houve alguma evolução
significativa que possa nos colocar como protagonistas em competições de nível
mundial?
Marcel - Hoje somos mais fortes, mais ágeis, mais velozes e saltamos muito mais.
Além disso, o mundo ficou menor e temos muito mais contato com o grande
basquete desde a nossa formação como jogador.
Na minha época não existiam a TV a cabo, nem a internet, que trouxeram entre
outras coisas, a cultura esportiva e o melhor basquete do mundo.
Atualmente o grande sonho de um jogador é atuar na NBA ou na Europa.
Temos vários deles nessa condição.
De qualquer maneira, nunca deveremos nos esquecer de nossas origens, da
nossa criatividade e intuição, que são os fatores que nos diferenciam do
basquete praticado no mundo inteiro.
O dilema é colocar nossas características culturais e esportivas dentro
de um jogo globalizado, sempre em transformação e desenvolvimeno.
É preciso conhecer ambos os lados dessa equação para atingirmos os
resultados que atualmente ninguém acredita que possamos conseguir.
EJ - Os treinadores brasileiros conseguiram evoluir nos métodos de treinamento?
Marcel - Os técnicos brasileiros, em qualquer nível, são pressionados por
resultados e tendem a esconder os defeitos de seus jogadores para, por outro
lado, evidenciar suas qualidades.
Não acho completamente errada essa pressão, mas isso provoca uma
especialização precoce dos atletas e uma formação incompleta de nossos
treinadores.
No final, para compensar essa deficiência técnica e de preparação de
equipes, utilizamos de relações políticas para alcançarmos nossos objetivos em
campo. É o que eu chamo de “gogó”.
Temos em nossos campeonatos excelentes “gogozeiros” tanto na quadra como
na direção das equipes (técnicos e dirigentes).
Ora, todos os países, num menor ou maior grau, aplicam o “gogó” em seus
campeonatos regionais e nacionais, mas quando o assunto é competição de alto
nível, o “gogó” não tem valor de mercado e é justamente essa arma que sempre levamos
para o grande basquete (à exceção de Mar del Plata).
Eu não vi ninguém “gogozar” em Mar del Plata. Vi, isso sim, uma equipe
treinada, que faria qualquer sacrifício para atingir o objetivo comum (abdicar
de glórias individuais, inclusive).
Se não preparamos apropriadamente nossas seleções e equipes, e
utilizamos apenas o “gogó” dificilmente chegaremos a algum lugar como esporte e
os treinadores têm grande parcela de responsabilidade nisso.
Devido à quantidade de perguntas da minha parte, dividi a entrevista em duas partes, logo posto a segunda parte!! Por enquanto deleitem-se!
É isso aí....





