quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Tabelinha com......... Marcel de Souza (parte 1)


Uma das melhores coisas da vida é termos heróis desde a infância, e outra melhor ainda é poder conviver e se comunicar com estes heróis. Este blog simplesmente está conseguindo algo fantástico, ter no quadro Tabelinha os heróis desse que vos escreve.
Nesta semana, tenho o prazer de entrevistar um dos meus heróis. Homem com visão de mundo e do esporte que ajudou a promover no nosso país. Médico do Programa Saúde da Família, Radiologista, treinador  e um dos maiores jogadores de basquetebol da história do Brasil, tem opiniões fortes, precisas e por isso o Tabelinha desta semana é com MARCEL DE SOUZA!!!!!

Esporte Joinville - A família é muito importante no apoio ao atleta em todas as fases da carreira. Gostaria que você relatasse um pouco da importância da família na sua escolha pelo basquete.

Marcel - Na verdade, nada substitui o treinamento e o tutor. Esse pode não ser da família, que é importante para a formação emocional de todos nós.

Minha família sempre me apoiou e meu pai foi um excelente tutor. Devo tudo a ele.

EJ- Impossível não lembrarmos de momentos épicos da sua carreira como jogador no Mundial de 1978 no último segundo contra a Itália, no título Mundial com o E.C Sírio em 1979 e o título Pan-Americano em Indianápolis em 1987. Qual foi o melhor momento da sua carreira?

Marcel - O basquete é um esporte coletivo e o Pan de 87 foi o melhor momento nesse sentido.

Já a cesta das Filipinas no mundial de 78 foi o que mais marcou a minha carreira como indivíduo.

EJ - Qual a importância do E.C Sírio na tua vida?

Marcel - O Sírio foi o clube que me deu condições de desenvolver todo o meu potencial e embora eu já estivesse na seleção brasileira (aos 16 anos) quando fui para lá, tenho certeza que se não fosse o Sírio, eu não saberia onde poderia chegar como atleta.

EJ - Como foi a ida para os Estados Unidos jogar no basquetebol universitário?

Marcel - Fui para os Estados Unidos porque eu já era cestinha do campeonato paulistano, do campeonato estadual e do campeonato brasileiro, mas continuava “reservão” na seleção.

Quando meu pai foi perguntar aos dirigentes da seleção brasileira se não estava na hora de me darem uma chance, ouviu deles que eu ainda era muito novo, que outros atletas iriam jogar e que eu deveria esperar pela minha vez.

Meu pai então, lhes disse que se era para esperar a vez ele iria me mandar para uma universidade americana (Bradley University).

Eu, é claro, fui. Já no terceiro jogo do ano virei titular e tive uma média de 14,4 pts por partida naquela temporada.

Meu técnico (Joe Stowell) me garantiu que se eu ficasse lá por quatro anos, seguramente jogaria na NBA.

Isso provocou uma reação muito grande no basquete brasileiro e, contra a minha vontade, novamente respeitei as orientações de meu pai, retornei ao Brasil e me tornei titular da seleção brasileira de 76 até as Olimpíadas de 92 quando perdi essa condição e encerrei minha carreira na seleção.

EJ - E a transferência para o basquete italiano, houve alguma dificuldade de adaptação ao jogo e aos métodos de treinamento?

Marcel - Veja bem, eu jogava sem dificuldades no Brasil e fui para o melhor campeonato do mundo, fora da NBA, na época.

Foi um choque ideológico muito grande o qual durou todo o primeiro turno da competição.

Lá fui apresentado ao verdadeiro basquete e até hoje não consegui trazer as minhas convicções, que foram forjadas nessa experiência italiana, para o basquete brasileiro.

EJ - Com o fim da carreira de jogador se aproximando na volta ao Brasil no início dos anos 90, como aconteceu a migração para a carreira de treinador?

Marcel - Quando percebi que eu enxergava o jogo, mas estava sempre um segundo atrasado, ou seja, não reagia com a mesma velocidade de antes, resolvi parar de jogar.

Meu joelho também colaborou muito para a essa decisão.

Entretanto, tinha desejo de continuar no meio do basquete e a opção de ser treinador veio naturalmente.

Encerrei minha carreira num jogo Palmeiras e Santa Cruz do Sul numa sexta-feira e no domingo já era o técnico de Guarulhos.

EJ - Você em 2007, dizia ser a favor de um técnico estrangeiro para a seleção desde que, esse vivenciasse a nossa realidade, o atual técnico da seleção e o anterior conseguiram trazer alguma evolução pro basquete brasileiro?

Marcel - Em 2007, Mike Frink e Flor Melendez sabiam muito bem como funcionava o basquete brasileiro como um todo e eu não criticaria a decisão de torná-los treinadores da nossa seleção.

Frink foi assistente técnico da seleção brasileira em 92 e Melendez já treinou várias seleções além de Porto Rico. Ambos foram treinadores de equipes brasileiras.

O basquete brasileiro sempre esteve entre os melhores do mundo, caso contrário não teríamos tantos jogadores atuando fora do Brasil nos mais diversos níveis.

O que nunca aconteceu na nossa seleção e ainda não acontece atualmente, embora os resultados já estejam aparecendo com uma mudança de atitude dos principais jogadores da nossa seleção, foi o treinamento apropriado.

Até o pré-olímpico de Mar del Plata, treinamos e jogamos como se sempre fez em nossos campeonatos.

O grande valor de Magnano foi treinar e jogar como se faz na Argentina, que é uma potência mundial.

O maior valor de nossos principais jogadores foi o de perceber que Mar del Plata era a “última praia” para que eles pudessem deixar algo de bom para as gerações futuras e para eles mesmos, pois a participação em Olimpíadas coroa a nossa carreira e nos transforma em exemplo para os novos atletas.

No entanto, o que vimos posteriormente a essa grande conquista, no Pan de Guadalajara, foi uma volta ao velho esquema, mesmo com o nosso excelente técnico no comando, o que mostra que ainda não desenvolvemos todo o nosso talento, nem compreendemos o que é seleção brasileira de basquete.

EJ - O perfil do atleta de basquetebol brasileiro mudou? Houve alguma evolução significativa que possa nos colocar como protagonistas em competições de nível mundial?

Marcel - Hoje somos mais fortes, mais ágeis, mais velozes e saltamos muito mais. Além disso, o mundo ficou menor e temos muito mais contato com o grande basquete desde a nossa formação como jogador.

Na minha época não existiam a TV a cabo, nem a internet, que trouxeram entre outras coisas, a cultura esportiva e o melhor basquete do mundo.

Atualmente o grande sonho de um jogador é atuar na NBA ou na Europa. Temos vários deles nessa condição.

De qualquer maneira, nunca deveremos nos esquecer de nossas origens, da nossa criatividade e intuição, que são os fatores que nos diferenciam do basquete praticado no mundo inteiro.

O dilema é colocar nossas características culturais e esportivas dentro de um jogo globalizado, sempre em transformação e desenvolvimeno.

É preciso conhecer ambos os lados dessa equação para atingirmos os resultados que atualmente ninguém acredita que possamos conseguir.


EJ - Os treinadores brasileiros conseguiram evoluir nos métodos de treinamento?

Marcel - Os técnicos brasileiros, em qualquer nível, são pressionados por resultados e tendem a esconder os defeitos de seus jogadores para, por outro lado, evidenciar suas qualidades.

Não acho completamente errada essa pressão, mas isso provoca uma especialização precoce dos atletas e uma formação incompleta de nossos treinadores.

No final, para compensar essa deficiência técnica e de preparação de equipes, utilizamos de relações políticas para alcançarmos nossos objetivos em campo. É o que eu chamo de “gogó”.

Temos em nossos campeonatos excelentes “gogozeiros” tanto na quadra como na direção das equipes (técnicos e dirigentes).

Ora, todos os países, num menor ou maior grau, aplicam o “gogó” em seus campeonatos regionais e nacionais, mas quando o assunto é competição de alto nível, o “gogó” não tem valor de mercado e é justamente essa arma que sempre levamos para o grande basquete (à exceção de Mar del Plata).

Eu não vi ninguém “gogozar” em Mar del Plata. Vi, isso sim, uma equipe treinada, que faria qualquer sacrifício para atingir o objetivo comum (abdicar de glórias individuais, inclusive).

Se não preparamos apropriadamente nossas seleções e equipes, e utilizamos apenas o “gogó” dificilmente chegaremos a algum lugar como esporte e os treinadores têm grande parcela de responsabilidade nisso.

Devido à quantidade de perguntas da minha parte, dividi a entrevista em duas partes, logo posto a segunda parte!! Por enquanto deleitem-se!
É isso aí....

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