No fim de 1982, mudamos de residência e fomos morar no condomínio Adriana no bairro Boa Vista, ali conheci alguns amigos que levo pro resto da vida, pessoas diferentes, o início de uma vida social com a molecada. Aprendi a jogar futebol em uma quadra improvisada em um local com asfalto solto, um negóciol mal feito, mas era o que tínhamos. Nesta época éramos poucos meninos que gostavam de jogar futebol e tínhamos no ainda inacabado condomínio muitos locais para jogar, e apelidávamos as improvisadas quadras com nomes de estádios, como Maracanã, Morumbi e não podia deixar de ser o Ernestão. Era muito divertido, e minha mãe coitada vivia tratando dos meus joelhos ralados devido a aspereza do terreno. Além de arrumar uma fratura no nariz que me impediu de fazer as aulas de Educação Física por quase um ano, foi deprimente.
Por volta de 1983, havia uma agitação diferente no apartamento em frente ao que eu morava, um novo vizinho acabara de chegar. Era um homem negro de sorriso fácil, alto, cara de sambista boa gente, sotaque carioca, sua mulher tinha olhos muito bonitos e era muito divertida, ele tinha uma filhinha pequena e um enteado. Família divertida estes meus novos vizinhos de porta. Tinham um Chevette branco com placa do Rio de janeiro. O nome dele era Leonildo Aparecido da Silva, mais conhecido como Leo. O zagueiro conhecido por xerifão.
Tio Léo como nós os meninos do prédio o chamavam, era um cara fantástico, quando ele jogava e chegava em casa após o jogo, lá estava o pentelho aqui reclamando que não podia ter deixado o atacante adversário livre, ou reclamava que o parceiro de zaga dele não tinha feito um bom trabalho, pois na minha cabeça eu era praticamente um entendido no assunto futebol e ele apenas olhava com o olhar cansado pra mim, ria e falava: “Éh mesmo!!! Então tá bom, deixa que no próximo jogo não vou deixar ninguém chegar perto da área!!.
Leo não era um vizinho que vivia na casa de outro xeretando, mas era muito gentil, sua esposa a Bia vinha lá em casa de vez em quando, batia papo, pedia aquelas famosas xícaras de açúcar e eram bem diferentes dos cidadãos joinvillenses da época, digamos que eles gostavam de rir bastante.
Nesta época eu era viciado no Jec, sabia de tudo, de todos os jogadores, acompanhava os resultados, era um chato como dizia minha mãe, pois quando o tricolor ganhava eu ficava insuportável, mas se perdesse eu chegava a chorar.
O último andar dos edifícios do condomínio Adriana consiste em uma cobertura coletiva, que continha uma churrasqueira, com mesas e coisas do tipo, Uma bela noite de sábado ouço muitas vozes de homens no corredor do prédio e fiquei curioso, tinha uns 7 pra 8 anos e quando abro a porta vejo um monte de gente conversando entre eles o meia João Renato (loirinho bom de bola), Palmito (grande cabeça de área), o lateral-direito Sidnei, o goleirão Walter Diab, o nosso cracaço de bola Nardela, e mais alguns que eu acabei não reconhecendo de imediato. Tio Leo como sempre um gentleman comigo, me convidou para comer uma carninha com eles e ouvir algumas das histórias e piadas. Foi um momento sublime, se eu contasse para meus colegas de escola eles nunca acreditariam, me senti um menino exclusivo aquele dia, foi fantástico!!! Conheci de apertar a mão e de ouvir bobagens todos os grandes jogadores do nosso timaço, meu Deus como foi legal. Minha mãe acertadamente de chamou e pediu que fosse pra casa pois eles estavam ali pra justamente terem um momento de lazer e não precisariam de um rapazinho enchendo o saco deles.
Tempos depois no final do ano de 1983 ou começo de 1984, eu fiz uma viagem de férias com meu pai e me ausentei de Joinville por um tempo, na volta minha mãe muito feliz ao me ver retornando ao lar, me disse que tinha uma surpresa me aguardando no quarto, fui correndo ver o que era e quando cheguei, vi uma camisa tricolor com número 6 estampado ás costas e com o escudo do Jec bordado do lado direito do peito, não havia patrocínio declarado da Tigre na camisa ainda e por isso ela estava “limpa” de tudo, escrita nela uma dedicatória de parabéns pelo meu aniversário que havia sido em dezembro e assinatura de todos os jogadores do time, acho que até o presidente Waldomiro havia assinado, fiquei estarrecido, de boca aberta, foi o melhor presente que recebi na vida até aquele momento, quase nunca usava a camisa, deixava ela guardada, até que alguns anos depois eu acabei usando, cometi a asneira de ir jogar bola com ela , recebi um puxão e ela rasgou inteira, foi uma facada no coração.
Outro presente que ganhei do Tio Leo, foi ir ao estádio em dia jogo com ele, foi muito legal. Eu e o seu enteado o Flavinho ficávamos nas cadeiras do Ernestão assistindo ao jogo e ali era possível visualizar as cabines de rádio e TV, e via os locutores e comentaristas que marcaram época na imprensa esportiva da cidade, mas isso a gente fala mais pra frente. Após o jogo tive acesso ao vestiário do estádio, ver os jogadores após um jogo é uma coisa bem diferente, pois havia discussões, risadas, orações e alegria, uma coisa que saberia bem o que era anos mais tarde.
Houve um momento na carreira do zagueiro Leo no Jec em que sua fase não era muito boa, acabou fazendo uns gols contra, alguns erros grosseiros, mas como ele era o ídolo ao meu alcance, quando o encontrava no corredor do prédio dizia a ele que eu não estava triste por ele e que tudo era culpa no novo colega de zaga dele, o valente Leandro que viera do Grêmio. Houve um dia que o Jec perdeu um jogo em casa, não lembro agora pra quem e que o xerifão Leo acabou fazendo um gol contra ao desviar um cruzamento, as mídias detonaram o zagueirão, queriam a cabeça dele em uma bandeja de prata. Esperei o negão no corredor, quase em frente ao seu apartamento e disse ale que a culpa não era dele que o goleiro Walter havia falhado. Acho que adiantou, pois mais uma vez foram campeões catarinenses e ele ganhou ainda um troféu O Jornaleiro dado pelo jornal A Notícia para a seleção do ano. Acho que pra ele foi uma ano inesquecível.
O Leo foi muito vitorioso no Jec, venceu alguns estaduais e fazia parte do famoso time de 1985 que ficou em 8º lugar do Brasileirão daquele ano, em 1986 ele foi embora do tricolor, tinha se mudado do prédio algum tempo antes e assim perdemos contato, jogou em alguns times de menor expressão. Fiquei muito triste ao saber pela coluna do Maceió que ele havia falecido, O Tio Leo fez parte da minha vida como um admirador do futebol e como um jequeano.
Mais um ídolo que tive contato de perto foi o ex-ponta direita e técnico Ratinho, uma figuraça, simpático, falante e adorava contar seus momentos em times inesquecíveis, como a Portuguesa de Desportos, onde viveu seus melhores dias. Contava como eram as chuteiras de cravo na sua época e quanto pesavam as bolas quando se jogava na chuva. Falava do Rei do Futebol Pelé, e como ele jogava, era uma viagem no tempo, uma sala de aula de futebol. Falava de tática, de técnica e de como um time deveria fazer para conseguir atingir o equilíbrio. Eu me tornava um rapazinho chato, pois como estudava perto de onde era sua loja, por um período de uns 9 meses, acredito que fui quase todos os dias á sua loja, nem que fosse pra dizer apenas um olá!!
Que Deus cuide muito bem de vocês!!!!
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