domingo, 2 de maio de 2010

A primeira perda

Desde o dia que pisei no estádio as coisas mudaram bastante na minha vidinha de criança, meus pais se separaram, tive alguns problemas com o mundo, mas a maturidade precoce traz alguns bônus. Tornei-me o “hominho” da casa. Minha avó, vascaína, veio morar comigo e com minha mãe, e só pude acompanhar o tricolor pela televisão. Não conseguia perder os gols narrados pelo Marco Antônio Peixer para a RBS TV, no dia seguinte às partidas. Até que um dia de fevereiro soube pela TV que o Lico, nosso craque, tinha feito sua última partida pelo JEC contra o Bangu em Moça Bonita e iria para o Flamengo do meu ídolo, Zico.

Fiquei feliz por um lado, mas senti uma sensação de perda de outro. Aquele cara com jeitão de maloqueiro que ostentava uma bigodeira estilosa não ficaria mais em nossa cidade. Foi embora. Perdi muitas coisas neste fatídico ano do Senhor de 1981. Para que não fosse um ano perdido vi o rubro-negro carioca campeão da Libertadores da América contra o Cobreloa do Chile numa batalha em Montevideo e meses mais tarde em uma madrugada de dezembro o título do Mundial Interclubes em Tóquio contra o Liverpool da Inglaterra, Fiquei muito feliz, fui dormir com as camisas do Jec e do Flamengo. É lógico que tinha tudo a ver o Lico tava lá representando o tricolor!

O título estadual veio, para nós mas não consegui ver nada, apenas a comemoração e os foguetórios, mas lembro de sentir o gosto de ser campeão e do orgulho que a cidade tinha do time, pois nesta época o Jec não tinha hino, e quando faziam as chamadas congratulando o time pela conquista tocavam o hino da cidade, era incrível. Foi um ano diferente feliz e triste, não esqueci de quase nada!!!



Tudo na vida passa

Alguns meses depois o ano viraria e a noção de torcer e saber o que se quer, entender as regras do jogo, aprender a ler, foi notavelmente importante pra mim. Acompanhei mais uma vez o tricolor á distância, mais um campeonato. Alguns chegando outros indo embora. Foi a primeira Copa do Mundo que acompanhei com mais consciência do que ela representa. Assisti a primeira partida contra a União Soviética da muralha siberiana Dasaiev e o sofrimento que o Valdir Perez nos fez passar tomando um frangaço, que mais tarde fui perceber que era uma característica deste goleiro. Ganhamos com um golaço do Sócrates e uma pancada do Éder Aleixo depois de uma deixada perfeita do Falcão, bola no ângulo e 2 a 1 pro Brasil.

Depois foram os jogos contra Escócia e Nova Zelândia com exibição de gala de Zico e Falcão. Luciano do Valle e Juca Kfouri, junto com Mario Jorge Guimarães davam a moldura das pinturas que Brasil fazia em terras espanholas.
O jogo seguinte foi com a Argentina, atual campeã mundial da época que tinha Filiol no gol com a camisa 7, o Ardiles com a camisa 1 e um baixinho com barba por fazer, jeito de mal encarado que inclusive foi expulso daquele jogo, usava a camisa 10 que era nada menos que Diego Maradona. Ganhamos com autoridade, gols de Junior e Serginho Chulapa. Assisti esse jogo na instituição bancária que meu pai trabalhava no centro de Joinville, os homens ficaram eufóricos, falavam como era bom esse time, que tínhamos artistas e não jogadores, o então mestre Telê Santana comandava a trupe. Tudo andava ás mil maravilhas, o Brasil encatava o mundo todo. O samba cantado pelo lateral Junior “Voa canarinho voa”, tocava a toda hora nas rádios e na televisão. Tudo caminhava para uma conquista, só que faltava um último grande desafio.

O estádio Sarriá de Sevilha não tinha a beleza que o jogo merecia. Brasil e Itália se enfrentavam num clima de guerra por parte da Itália. O tal do Gentili de gentil não tinha nada, batia no Zico como se fosse um asno, o árbitro nada marcava, o manto amarelo foi rasgado pelos italianos e nem cartão eles tomavam. Paolo Rossi começou o sofrimento para o Brasil, Sócrates em uma jogada formidável de Zico empatou. Rossi de novo faz mais um. O empate classificava o Brasil e o cabeludo Falcão fez um golaço. O chato e condenável Paolo Rossi fez mais um, por mais que a cabeçada do zagueiro Oscar na época do São Paulo tivesse entrado, mas o safado do árbitro e o Dino Zoffi disseram que não e assim o Brasil entrou em luto. Vi homens chorando, as pessoas estavam muito tristes, o silêncio da cidade era algo assustador. Alguns revoltados falavam palavrões pela rua, os homens tão felizes minutos antes se tornaram rudes. Foi um acontecimento marcante na vida de todos os brasileiros.

Lembro de ter assistido a vários jogos muito interessantes daquela Copa. Alguns países que a muito tempo não figuram mais no cenário futebolístico mundial como o Kwait, Nova Zelãndia. Jogos que eram como se fossem guerras como a semi-final entre Alemanha do goleiro Schumacher do lateral Briegel. Breitner, Rumennigue e do jovem Matthaus, contra a França de Platini, Rochetaux, Girresse. Quer jogaço!! Deu Alemanha que pegaria a “maledeta” Itália que havia passado pela Polônia de Boniek na outra semi-final. Vi a final da Copa em casa, deu Itália e o Arnaldo Cesar Coelho se imortalizou no final do jogo ao levantar a bola como forma de encerrar a partida. Foi interessante.
Amadureci como torcedor, como criança entrando em fase escolar iniciaria uma outra fase em minha vida, que o Jec começaria a fazer mais parte.

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